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Há cem anos, no Ceará...

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8 de abril, , no Portal Sanjoanense

Raimundo Clarindo

 

No dia 07 de fevereiro de 1909 nascia em Fortaleza um grande brasileiro, chamado Helder Pessoa Câmara. Aos 22 anos tornou-se o padre Helder. Sua trajetória na igreja católica inclui as funções de bispo auxiliar no Rio de Janeiro e de arcebispo de Olinda e Recife. Sua trajetória como homem de Deus lhe levou a ser chamado de “o bispo das favelas”, “irmão dos pobres”, “profeta do desenvolvimento”.

 

O Brasil e o mundo sabem de quem falamos quando o nome é Dom Helder. Um nome que a ditadura militar proibiu de ser citado na imprensa brasileira entre 1970 e 1977. Nome lembrado diversas vezes para receber o prêmio Nobel da Paz; nome boicotado pelos que queriam calar sua voz. Em vão. A voz e o nome de Dom Helder que incomodavam aos poderosos (inclusive os de dentro da própria igreja católica) ecoavam no coração dos pobres do Recife, dos injustiçados de todo o país, e na consciência dos que desejavam um país melhor.

 

Um santo? Sim, no verdadeiro significado da palavra. Santo, porque seu coração era limpo, compassivo, amoroso, dedicado ao bem do outro. Santo, porque não aceitava a injustiça e não se calava diante dela. Santo, porque seu compromisso com a verdade lhe fez caminhar e gritar pelo Brasil e pelo mundo na defesa da democracia, da justiça e da paz.

 

Dom Helder Câmara nos deixou em agosto de 1999. Há dez anos, aos 90 anos de uma vida que poderia ser resumida em uma de suas muitas famosas frases: “se dou pão aos pobres, chamam-me de santo; quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista”. Tão ativo defensor de ideais, ele acreditava que mesmo após a morte não deveria descansar. “Não pretendo, de modo algum, ficar de braços cruzados na Casa do Pai; ao contrário, espero fazer na eternidade, incomparavelmente mais do que durante a caminhada”, disse certa vez refletindo sobre a morte.

 

Certo é que Dom Helder Câmara pode estar mesmo por aí, fazendo muito mais do quê o que fez durante os seus 90 anos de vida na terra. Pode estar em muitos lugares, nas muitas organizações que se inspiram nos ideais, no exemplo de vida e nas palavras do “profeta do desenvolvimento”. Pode estar nas muitas consciências, nos milhões de brasileiros e brasileiras que acreditam que o Brasil deve ser para todos os compatriotas, principalmente para os mais pobres, os que mais precisam acreditar que este país lhes pertence.

 

E eu vejo Dom Helder em muitos lugares. Na luta dos quilombolas do Piauí e na marcha dos sem-terra do sul, do Centro-Oeste e do Nordeste do Brasil. Na alegria da juventude, na força guerreira das nossas mulheres e na esperança de todos os que sonham com um mundo sem violência, sem guerra, sem fome, sem miséria. Eu vejo Dom Helder Câmara nos muitos projetos, programas, ações e políticas públicas que têm inspiração nas lutas e nos ideais dos movimentos sociais. No Fome Zero, no PRONAF, na Lei Maria da Penha, na demarcação de terras indígenas, na titulação de territórios quilombolas.

 

Dom Helder está vivo também no Projeto Dom Helder Camara, ação governamental (Ministério do Desenvolvimento Agrário) que aposta no desenvolvimento do semiárido. Essa ação financia pequenos projetos produtivos, que experimentam, aprimoram e potencializam alternativas de convivência com semiárido. Além disso realiza um trabalho de mobilização social, apoiando as organizações comunitárias na implantação dos projetos e na articulação de forças para a busca de novos projetos, do acesso às políticas públicas e da capacitação das lideranças. Tudo isso é feito através de entidades da sociedade civil, de organizações populares e movimentos sociais, bem ao jeito do cearense que nascia há 100 anos atrás, o “profeta do desenvolvimento” que também foi o “irmão dos pobres”.

 

Celebrando o centenário de nascimento e os 10 da morte do “Dom dos pobres”, fica para o país um desafio: preservar a memória de Dom Helder Câmara, não apenas com placas comemorativas, bustos na praça, estátuas em monumentos, mas em ações que pudessem merecer o aplauso sincero de Dom Helder. A memória de Dom Helder Câmara pede o aprofundamento e a consolidação de ações e projetos que bebam da fonte dos ideais dele que foi um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Paz, justiça, democracia, apoio aos pequenos, reconhecimento de suas legítimas organizações, garantia de crédito para seus empreendimentos, assistência técnica, educação...

 

Viva Dom Helder Câmara e seu exemplo! E Viva os que, vivos, continuam insistindo em seus ideais!

   

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© Projeto Dom Helder Camara