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Agência internacional de notícias divulga visita do presidente do FIDA a território do Projeto Dom Helder Camara

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AGRICULTURA-BRASIL:
Uma escola que dignifica a vida do campo
Mario Osava – Agência IPS

Independência, Ceará, 01/07/2009, (IPS) - "Aqui se forma para o campo e não para a cidade, que não é minha realidade, por isso me identifiquei com esta escola”, explica Israel Santos, de 16 anos, aluno do segundo ano secundário da Escola Família Agrícola (EFA) Dom Fragoso, na zona rural do município cearense de Independência.

Os 92 alunos da EFA, procedentes de 50 comunidades e de 12 municípios rurais alternam duas semanas na fazenda-escola, estudando e cultivando quase todos os alimentos que consomem, e duas semanas com suas famílias transmitindo e praticando o que aprenderam.

A EFA mostra que se pode viver bem no campo, segundo Israel, um dos 11 filhos de uma família que recebeu – em virtude da reforma agrária – 37 hectares em um município vizinho de Independência. O jovem frequenta a escola há seis anos, e se encanta porque valoriza a pequena agricultura, “antes desprezada”.

Este centro de ensino surgiu em 2002, por iniciativa da diocese local da Igreja Católica, dirigida entre 1964 e 1998 pelo bispo Antonio Fragoso, conhecido por sua luta a favor da gente pobre e camponesa. Uma associação sem fins lucrativos dedica-se a sustentar a escola, que há quatro anos obteve reconhecimento oficial para seus cursos de oitava e nona séries do ensino fundamental e para as quatro de nível secundário. Mas, trata-se de uma instituição de ensino diferente, para uma vida rural em melhores condições, valorizando-a de modo a evitar o êxodo juvenil para as cidades.

Às atividades produtivas – cuidar das hortas, da apicultura, de árvores frutíferas, sementes e animais – é dedicada uma hora pela manhã e outra à tarde. Mas as aulas não fazem diferença entre teoria e pratica. Os estudantes também visitam outras comunidades para levar idéias e conhecimentos de agroecologia, em um processo de “intercâmbio, pois também aprendemos com os agricultores e respeitamos sua experiência”, disse Rogério Almeida, de 19 anos, que quer estudar jornalismo sem abandonar a agricultura.

Seu companheiro Francisco Isaías, também da secunda série do curso secundário, confessou as dificuldades que teve para convencer seu pai a abandonar as queimadas, esses tradicionais incêndios de florestas, palha e mato para preparar a semeadura. “Não conseguimos acabar com as queimadas em muitas famílias, é uma questão cultural, mas os filhos cultivarão de forma diferente”, admitiu Francisca do Nascimento, uma ativista católica de base, formada em ciências da religião e especializada em educação ambiental, que este ano assumiu a coordenação da EFA Dom Fragoso.

Isaías, chamado de “Velho”, apesar de seus 17 anos, por ter interpretado um ancião no teatro da escola, acredita que finalmente seu pai está deixando a prática da queimada, que “parece boa no primeiro ano”, mas, no longo prazo, priva o solo de fertilidade. Agora “somente queimamos lixo, apesar de sabermos que não é correto, pois deveríamos reciclá-lo”, reconheceu. Com a ajuda de um irmão, o estudante está diversificando a produção familiar introduzindo produção de hortas, frutas, aves e porcos, outro ensinamento da EFA. Os escassos “999 metros quadrados” de terra de sua família ajudam a superar velhos hábitos paternos de se restringir as extensas plantações de milho e feijão. Aumentar a produtividade com espécies e técnicas para hortas se impõe como uma necessidade.

Os conhecimentos agrícolas destes adolescentes impressionaram a delegação do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) que visitou a escola no último dia 20. O presidente desta agência da Organização das Nações Unidas, o nigeriano Kanayo Nwanze, expressou o “orgulho” do Fida em apoiar esta escola através de projetos financiados no Brasil. “Aprendi muito” sobre o que a EFA pode ensinar ao resto do Brasil e ao mundo, disse Nwanze ao concluir sua visita. “O Brasil tem muito a oferecer à cooperação Sul-Sul”, acrescentou, destacando a importância da agricultura familiar, à qual se dedica um terço da população mundial e que produz 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros e 80% do que é consumido na África.

Esta escola agrícola é um modelo a ser multiplicado, disse Antonio Amorim, secretário-adjunto de Desenvolvimento Agrário do Ceará. “Queremos uma EFA em cada território do Estado”, disse referindo-se às sete grandes áreas rurais estaduais onde se promove um desenvolvimento integrado e que este ano chegarão a ser 13. O objetivo da escola é “a formação integral dos jovens” para promover o desenvolvimento rural, definiu sua coordenadora. Para Francisca do Nascimento, a “pedagogia de alternância” entre família e escola significa que “não aprendemos apenas na aula, a vida também ensina e o saber se constrói em conjunto”.

O apoio do Fida chega por meio do Projeto Dom Hélder Câmara, uma associação dessa agência com o Ministério do Desenvolvimento Agrário para fortalecer a agricultura familiar no semiárido Nordeste. Trata-se de processos participativos que compreendem capacitação, produção, comercialização, saúde e gênero, entre outras necessidades definidas pelos próprios beneficiados. A EFA é parte de uma iniciativa de educação contextualizada, adequada à realidade do campo. Busca-se um ensino voltado à convivência com as frequentes secas nordestinas, que compreenda um melhor conhecimento do clima semiárido, captação de água da chuva e alternativas de produção familiar e incorporação de valor agregado.

Cem professores de escolas públicas de Tamboril, município próximo a Independência, estão se formando neste tipo de educação, o que beneficiará mais de mil estudantes. Mas a EFA busca novos horizontes. Quarenta de seus alunos estão estudando produção de vídeos, com o objetivo de fazer este ano cinco DVDs. Não se trata de desviar-se da finalidade primordial, mas de aprender a filmar técnicas agrícolas e a realidade local, explicou Israel Santos, que faz parte do grupo. Ser morador de uma zona rural tampouco exclui outros talentos.

Moisés Santos, de 16 anos, já é locutor de rádio e aos sábados e domingos apresenta um programa de três horas sobre musica na emissora local. Esse trabalho, remunerado, soma-se ao de introduzir, sem resistência paterna, a produção orgânica, sem agroquímicos, e novas variedades nos 37 hectares que tem sua família de oito irmãos. Moisés pretende estudar veterinária e se especializar em pecuária de pequenos e médios animais. IPS/Envolverde

(FIN/2009)

   

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